A criança que vive em ti

Sim, queremos leveza, alegria e felicidade neste mundo. Apesar dos desafios da estrada, desejamos fazer das nossas vidas algo de valor, experienciando segundas-feiras lindas, cheias de entusiasmo e harmonia: começos empolgantes com meios cheios de empenho e finais recompensadores.


Buscamos por um trabalho que nos preencha, por pessoas que nos apoiem, laços significativos, dinheiro para algum desfrute, rotinas saudáveis e colheitas de saúde e paz.


Mas será simples realizar esta sagrada tarefa? Muitos ainda se perdem em carências, medos e correrias da cultura materialista, apesar de já possuírem consciência suficiente sobre as melhores escolhas para atingirem seus objetivos existenciais. Por onde começarmos a caminhada frutífera?


Talvez o trabalho mais importante a ser realizado nesta vida (para que os nobres objetivos sejam alcançados) seja justamente voltar pela estrada do tempo, usando as vias do coração, e resgatar a criança que foi deixada esquecida, lá no fundo obscuro do inconsciente - estática no corpo, mas ativa e intensa nas emoções.


Aquela que soltamos da mão, no começo da estrada, e que, com olhar triste - necessitada de colo, abraço e proteção - nos aguarda, solitária, mal cuidada, ignorada de nós mesmos.


A criança que foi moldada por pessoas, grupos, instituições por onde passou, que foi uniformizada, podada, enxertada, magoada e depois levada para um lugar distante dela mesma: um lugar de medos e cobranças.


Sim, talvez tenha recebido afeto. Mas não só.


Também disseram que ela deveria acumular posses, deixando de lado sua humildade, sua simplicidade; que precisaria criar artifícios, para depois se perder neles. Se tornar competitiva, vaidosa, dissimulada, consumista, materialista, individualista...


Mas a criança não quer isso. Jamais quis.

E, vez ou outra, berra para que cuidemos desse assunto fundamental.


Jean-Jacques Rousseau, em sua obra Emílio - uma referência para educadores - escreveu que a criança nasce boa das mãos de Deus, mas que a sociedade a corrompe.

Disse isso logo na primeira frase do livro.


Quem já leu sobre a vida deste grande filósofo, sabe que seus primeiros anos de vida foram muito difíceis. Sua mãe morreu no parto e o pai fugiu da cidade quando tinha 10 anos, após uma briga com pessoas influentes.

Seus biógrafos contam que Jean-Jacques jamais conseguiu superar o fato de sua mãe ter morrido por conta de seu nascimento assim como os desdobramentos desta fatalidade.


Talvez Emílio tenha sido fruto de um estorvo na alma que precisava ser colocado no mundo, provavelmente porque tinha a ver com aquilo que sofreu. E, quem sabe assim, o pequeno menino tenha sido cuidado através deste legado.


Dá o que pensar…


A questão é - se você retornar nesta estrada e se encontrar com a criança que foi um dia, pode ser que ela te olhe brava (ou, quem sabe, chorosa?) e te diga que não queria ter seguido pelos atalhos que você escolheu, tampouco pelos que te forçaram escolher. Que muitas vezes se sentiu sozinha, abandonada, sem forças nem direção. Que não entende porque deixou de escutar seu chamado, sem nunca mais voltar para dar-lhe colo e escuta.


Depois de desabafar, de chorar sua dor, quem sabe ela possa encontrar caminhos para te explicar sobre a cobrança que faz, vez ou outra, gritando no porão da tua alma estas coisas todas. Afinal, o que mais ela poderia fazer senão gritar por você, para que a ajudasse a encontrar a melhor porção dela mesma?

Você é a única pessoa responsável por ela, agora!


Por fim, se tiver a coragem de escutar suas dores e lamentos, talvez a criança poderá encontrar um espaço para também falar sobre sua leveza, sua alegria, seu entusiasmo pela natureza. Para dizer sobre algumas de suas vontades, que continuam presentes: descobrir coisas novas, ser confiante, entregue, feliz…


Pode ser que ela te lembre do quanto foi bom cuidar de um cachorro, conversar sozinha com uma ave, subir na árvore para brincar de casinha. De como era maravilhoso sentir o perfume do bolo da avó ou sentar para ver um desenho animado, na volta da escola.


Do quanto era fundamental jogar bola, brincar na rua, desenhar a montanha…


Se tiver a coragem de escutar o ruim, poderá ter acesso também ao bom dela mesma - saber da sua riqueza.


Curando sua criança, poderá acolher a melhor parte dela. E, então, na própria verdade de tua alma, voltar para a estrada da vida, tocando os dias com a responsabilidade do seu Eu Adulto, junto da alegria e da fé imorredoura de sua criança, agora vista, cuidada e feliz.


Talvez seja este o começo de um novo (e harmonioso) existir...

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