Após um suspiro ela se foi... relato de uma experiência da teoria à vivência da morte e do morrer.

Até bem pouco tempo – para ser mais exata 05.03.2021 – eu me apresentava da mesma maneira, fosse em uma live, uma palestra ou um treinamento. Iniciava minha fala dizendo: “Sou filha do Antonio, falecido há muitos anos e da Nair, uma senhorinha de 95 anos que está entre nós, graças à Deus. No entanto, esse cenário mudou e confesso que ainda estou elaborando minhas próximas apresentações. O meu desejo é compartilhar com você como foi todo esse processo de acompanhar a morte lenta e domiciliar da minha mãe à distância, já que ela morava no Brasil e eu moro nos Estados Unidos.

Em novembro de 2020 minha mãe completou 95 anos, até então seu único problema de saúde eram as dores no joelho direito e no braço esquerdo, ambas causadas pelo desgaste ósseo natural para uma pessoa dessa idade. Suas taxas eram excelentes, seu coração e pressão sanguínea da mesma forma, ou seja, ela era uma senhorinha saudável que tomava um único medicamento para fortalecimento dos ossos. A partir do final de dezembro, as coisas começaram a mudar e ela começou a apresentar alguns problemas, nada graves, mas que nos levaram a hospitalizá-la algumas poucas vezes, na última vez ela foi diagnosticada com trombose no joelho direito, foi devidamente medicada e no segundo dia de internação já não fazia mais sentido mantê-la no hospital, até porque, no meio de uma pandemia de Covid-19, isso era muito perigoso, não somente para ela como para os que a acompanhavam. O fato é que, a partir de dezembro minha mãe começou gradativamente a se despedir da vida. De alguma forma eu já sentia essa despedida lenta. Nesse processo passei por muitos estágios principalmente medo e culpa. Medo do que poderia acontecer, ela morrer e eu não poder me despedir, já que estávamos passando pela pandemia e isso implicava uma série de coisas, dentre elas a impossibilidade de viajar. Desses dois sentimentos – medo e culpa, confesso que a culpa era a que mais tomava conta dos meus pensamentos e meu coração ficava cada dia mais oprimido. Eu sentia culpa por não estar perto dela, sentia culpa por deixar minha irmã sozinha com todas as responsabilidades, culpa por ela estar morando com uma cuidadora e não comigo que era filha, sentia culpa por tudo. Aos poucos, através do meu processo terapêutico fui saindo desse lugar de culpa que somente me conduzia à uma vitimização que não contribuía em nada com o momento e fui buscando formas de me fazer mais presente. Comecei a sugerir algumas pequenas coisas, de ordem prática, do dia a dia com o olhar de alguém que estava “fora do caldeirão”, minhas pequenas contribuições levavam um certo alívio na rotina, tanto para minha mãe quanto da minha irmã e a cuidadora de nossa mãe.


Um dos papéis que exerço na minha vida é o de psicóloga, tenho uma especialização em Tanatologia-Ciência que estuda a morte e os processos do morrer, fiz essa formação em 2009 e, por mais que tenha feito muitas lives falando sobre o tema, ainda não havia sentido na pele o que é esse processo, ainda mais não estando próxima.


Como disse, a partir do momento que saí da culpa, passei a ligar mais vezes para minha mãe, lia um livrinho de mensagens diárias para ela, relembrava estórias engraçadas de minha infância e da infância dela. Haviam dias que ela escutava atentamente, em outros fechava os olhos e eu não sabia se ela queria ou não que eu lesse mais ou continuasse falando, por via das dúvidas, fui mudando as formas de “estar” com ela. Passei a dizer repetidas vezes o quanto a amava, o quanto era grata pela vida que ela me deu, o quanto eu reconhecia sua coragem de, ainda que numa idade avançada para época, ela ter me permitido vir ao mundo. Enfim, esses quase três meses, para mim significaram mais que os meus 53 anos, foi o período em que me senti mais próxima da minha mãe, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância, foi um período de novos significados e de muitos resgates.


Sou uma pessoa muito abençoada e tenho amigas muito próximas que conheci nessa formação da Tanatologia, elas foram fundamentais nesse processo. Foram elas que me deram suporte emocional, que se colocaram como escuta amorosa, que acolheram meu desespero em alguns momentos e, especialmente a Dra. Juliana Ferragut-Especialista em Cuidados Paliativos, que com seu amor e lucidez contribuiu para que eu levantasse a bandeira de manter nossa mãe em casa, para que ela pudesse fazer esse caminho da morte da maneira mais tranquila e natural possível e assim foi.


Veja que eu disse, da maneira mais tranquila e natural possível, eu não disse que esse caminho foi fácil ou foi bonito. A morte não tem nada de bonita, mas também não tem nada de feia, a morte É...

Foram momentos desafiadores, momentos de testar minha fé, a paciência de compreender que há um tempo muito diferente do tempo que nós conhecemos em nosso dia a dia corrido, um tempo de silêncio, de espera. A primeira vez que escutei sobre a morte ser um processo gestacional assim como do nascimento, foi com a Dra. Juliana e pude ver claramente esse processo acontecendo. À medida que os dias passavam, percebia claramente que o momento se aproximava, cada dia o corpo dava um novo sinal, mas não sabíamos quando e como seria esse momento, já que cada um tem um processo único, assim também é com o morrer.


Eis que chegou o dia 05 de março, dia de comemorar meu nascimento, minha vida, a vida que minha mãe me possibilitou, acordei, orei e meu primeiro pedido a Deus foi “Pai, que não seja hoje a partida dela”, em seguida recebi uma mensagem da Helena, o anjo que cuidava dela, dizendo que ela ainda não havia aberto os olhos, que estava muito quietinha. Imediatamente ajoelhei novamente e pedi ao Pai “Senhor que seja feita a Tua vontade e não a minha.”.

O dia estava especialmente lindo, me sentia muito presenteada pela vida, uma sensação muito diferente de tudo que já havia sentido. Sentia uma paz profunda que tomava conta do meu coração. Por volta das 2:30pm aqui nos USA e 16:30 no Brasil, escolhi um lindo e tranquilo jardim para falar com minha mãe. “Ela continua de olho fechados”, me disse Helena. Pedi a ela que colocasse o celular bem próximo ao rosto da minha mãe e, ao escutar minha voz ela abriu os olhos, disse a ela o quanto a vida dela tinha valido a pena, era só olhar para as filhas, netas e bisnetos que ela estava deixando, que ela estivesse em paz, porque nós ficaríamos bem, disse a ela o quanto a amava, o quanto ela era e continuaria sendo importante em minha vida, ri, chorei e por fim cantei para ela. Foi um momento muito significativo para mim, ali senti que me despedia, pedi a Helena que acariciasse a cabeça de minha mãe e disse que em breve nos veríamos. Ela fechou os olhos novamente e, horas depois ela deu um suspiro e se foi...

Não houve dor, não houve sofrimento... a vida se entregou à morte de uma maneira muito natural.



Me sinto triste, muito triste. Imagino que essa dor no peito que em alguns momentos se manifesta, vá aos poucos dando espaço para a saudade que fica, já que a saudade é o preço que pagamos por amar alguém.


No dia que minha mãe me deu a vida ela se despediu da vida!


E assim é.

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